
Uma das festividades da cidade de Cusco é o Corpus Christi, que continua vivo até hoje graças à mistura entre o religioso e o histórico, deixando ano após ano uma lembrança em muitos viajantes nacionais e estrangeiros. Conheça mais sobre esta tradição.

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Este evento é entendido como a celebração do corpo de Cristo na Eucaristia. A festa começa com uma missa na presença de todos os santos e, em geral, termina ao cair da noite, ao ritmo de música e danças.
Esta festa vem da época dos incas, tempo em que os mallquis (corpos mumificados dos incas) eram homenageados. Anualmente, o povo realizava procissões pela cidade como parte de um culto para honrar os falecidos. Essas procissões terminavam em grandes reuniões, nas quais eram servidos banquetes cerimoniais, com abundância de comida, e se consumia a tradicional aqha, hoje conhecida como chicha branca, como ato de reverência às suas divindades.
Com a chegada dos espanhóis, essa tradição passou por uma mudança devido à introdução do catolicismo e da religião que eles professavam, já que consideravam que realizar esses atos desonrava sua cultura e sua religião.
Os religiosos daquela época tomaram a decisão de acabar com essa tradição, que consideravam “pagã”, obrigando a substituir os restos venerados por imagens da Virgem e de alguns santos católicos. Foi assim que, em Cusco, teve início essa tradição que hoje ainda perdura e já faz parte da cultura andina.
Há alguns acontecimentos ligados à celebração, como o terremoto de 21 de maio de 1950 na cidade de Cusco. Durante esse período, houve dificuldades para realizar a procissão dos santos porque as famílias afetadas pelo terremoto estavam refugiadas na praça. Apesar da situação, o trajeto foi ajustado para que a procissão pudesse acontecer normalmente.
Outro fato importante foi a morte do arcebispo Luis Vallejos em 1982. A hierarquia eclesiástica ordenou a suspensão da procissão daquele ano; no entanto, os mordomos rejeitaram a proposta. A procissão foi realizada normalmente, mas com algumas mudanças que refletiam o luto vivido naquela ocasião.
Muitos cusquenhos e visitantes aguardam com entusiasmo essa época para contemplar a procissão. Na cidade de Cusco, você encontrará algumas atividades reguladas pelo calendário lunar, entre elas a “Semana Santa”, a festividade do Senhor de Quyllurit'i e a procissão de Corpus Christi.
A festividade começa numa quarta-feira, um dia antes da procissão central, com a saída de cada santo do seu templo. Cada santo é acompanhado por uma procissão que inclui os mordomos ou “carguyoq”, em alguns casos o prefeito do distrito, uma banda de músicos ou “q'aperos” e, especialmente, os fiéis que voluntariamente decidem acompanhar seu santo.
Todas as imagens que participam dessa grande procissão se reúnem em frente ao templo de Santa Clara, para depois seguirem em direção à Catedral da Plaza Mayor de Cusco; diz-se que as imagens devem chegar em um horário determinado e respeitando a ordem tradicional.
As estátuas dos santos são levadas à Catedral e permanecem lá dentro até o dia seguinte, que é o dia central da procissão. Segundo crenças populares, acontecem reuniões entre todas as imagens paroquiais durante as noites em que permanecem na catedral.
O dia central desta festividade é um momento de grande atividade para os mordomos, pois eles são responsáveis por garantir que essa festa aconteça de acordo com a tradição e com as expectativas dos fiéis de cada imagem religiosa. Um exemplo claro disso é a vestimenta de cada imagem, porque todos os anos ela deve aparecer com suas roupas mais destacadas para esta festa, que reúne milhares de pessoas de diferentes partes da cidade de Cusco.
As pessoas encarregadas tiram seu santo ou sua virgem da Basílica da Catedral e a procissão começa. A Plaza Mayor se enche de muitos devotos e pessoas de diferentes lugares.
A ordem em que os santos saem é a seguinte:

Os mordomos distribuem presentes aos participantes durante a procissão, entregando objetos como cartões-postais, lembranças e outros itens. A procissão termina aproximadamente às 17h, depois que todos os santos retornam à Catedral, onde permanecem até a quinta-feira seguinte, quando os fiéis, os mordomos, o prefeito e outras pessoas levam seus santos de volta ao templo de onde vieram.
O prato tradicional desta festividade se caracteriza por ser frio e picante. É uma mistura de 10 ingredientes, como cuy assado, cau cau (ovas de peixe), galinha cozida, cecina (carne desidratada), cochayuyo (alga marinha), chouriço, milho branco torrado, queijo, rocoto em rodelas e a torreja, que tem uma consistência fofa e é preparada com uma combinação de ingredientes como milho, abóbora e um pouco de caldo de galinha para dar um sabor característico na hora de servir.
Segundo alguns relatos, sua criação remonta à época inca, especificamente aos aynis, um sistema de trabalho de reciprocidade familiar, já que, ao final da jornada diária de trabalho, o melhor de cada casa era compartilhado, formando uma mistura de alimentos de diferentes setores e criando assim um delicioso banquete.
Este prato representa a cultura inca porque era oferecido ao deus Sol, um ser cálido; por isso, deveria ser consumido frio, e coincidentemente daí vem seu nome em quéchua: chiri = frio, e uchu = comida; se o interpretarmos em português, significaria “comida fria”.


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